O abraço de Valmont

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O abraço de Valmont

Mensagem por Eques em Qua Nov 10, 2010 7:27 pm

Oiii!

Esse é o histórico do meu Toreador. Ficou meio grande e acho que está legal entao tb quis portar ele aqui.

Espero que gostem.

Era uma noite escura. O céu, encoberto por nuvens, era caprichoso deixando que em pequenas falhas, a lua se denunciasse em frágeis, cálidos fios de luz.

Seus cachos louros dançavam com a brisa que sacodia as árvores. De pé sobre uma sacada, ele e seu violino contemplavam a eternidade. Em uma mágica e casual parceria, a escassa luz da noite desenhava um palco que ele preenchia de forma magistral, tecendo, nas notas de uma esquecida melodia, um espetáculo de encanto e assombro.

- Duzentos anos se passaram desde que ouvi esse lamento a primeira vez e ele me parte o coração como fez há duzentos anos atrás. Você nunca esquecerá?

A voz revelava alguem que, até então, apreciava a música nas sombras. Em trajes de seda e carmesim, uma musa digna das pinturas de boccicelli e caravagio não disfarçava o arrebatamento que a cena lhe produzia, estampado em sua expressão, estampado em olhos que, em seu profundo azul, contrastavam com os longos e rubros cabelos de fogo que lhes serviam de moldura apaixonada.

Abrubtamente, a melodia encerrava da forma que havia começado . O homem descansava seu violino vermelho em uma capa de cetim como quem não tivesse ouvido uma só palavra. Seu cuidado lembrava uma mãe cuidando de seus filhos.

Debruçado sobre a amurada de mármore, Auguste parecia retornar de um mundo muito distante, um mundo que jazia em sombras e esquecimento. Depois de um curto e longo momento, ele finalmente respondia:

- Ainda posso ouvir seus gritos...


Auguste Valmont nasceu em uma fria noite de outubro do ano de 1776. O quarto filho de um nobre francês teve seu berço na cidade de Lyon, numa das vastas e luxuosas propriedades de sua dinástica família.

Pouco se pode dizer de sua infância e adolescência. Ele não era de fato o herdeiro dos Valmont e tão pouco o favorito de seu pai, mas tinha em sua mãe o amor mais zeloso e incondicional. E esse amor não poupava formas e meios de se fazer expressar.

Se não foi a criança mais mimada do mundo, Auguste certamente concorreu para sê-la. Pôneys, servos, carruagens e até um zoológico particular, os carinhos e cuidados maternos desafiavam os limites da extravagância e do bom senso, cobrindo o jovem Valmont dos mais ricos e exóticos presentes possíveis.

E não se sabe bem porque, Auguste encontrava a mesma reverência e encanto em todas as mulheres com quem tinha contato: das servas do castelo às suas primas e até mesmo as petulantes amigas de sua mãe, todas o fitavam com olhos de adoração desde o momento em que se equilibrou pela primeira vez sobre seus pés, nas preciosas tapeçarias de sua família. Diziam que ele era um anjo e era com disfarçado desgosto que ele atendia quando o chamavam pelo seu apelido:

Querubim.

Apesar de tudo isso, Auguste aprendeu muito cedo o seu lugar na família. Talvez no indisfarçado ódio invejoso que seus irmãos mais velhos nutriam por ele. Irmãos que não mediam esforços para dizer que dos quatro filhos, ele era o de menos importância, o que tinha menos direitos e sem dúvida "o mais inútil de todos os Valmont".

Não foram poucas as vezes que ele corria pelas corredores com lágrimas de raiva e revolta nos pequeninos olhos prateados. Trancado em seu quarto Valmont sentia que tinha tudo no mundo e ainda assim, não tinha nada. Para o desespero de sua amada mãe, haviam vezes em que nada que ela fizesse o tirava de seu amargurado refúgio infantil.

Talvez por obra do destino ou a mais afortunada casualidade, tudo isso mudou um dia quando, em seu sexto aniversário, eles se encontraram pela primeira vez e se encontraram para nunca mais se separarem um do outro. Auguste recebera o mais rico e precioso presente que ja havia até então recebido: seu violino.

E para o maior espanto de todos, a criança tinha um verdadeiro dom, um dom que inegavelmente beirava ao sobrenatural.

Não tardou muito para que eles viessem e vieram de todas as partes da Europa: Nápoles, Viena, Paris e até mesmo da Sicília, virtuoses de renome ensinavam a arte do violino para Auguste e era com inegável espanto que viam a criança e seu instrumento executarem obras e peças que eles mesmos levaram muitos anos para dominar: das partitas de Bach aos caprichos de Paganini, não havia nada que o pequeno querubim não conseguisse tocar.

E não apenas sua família e tutores souberam desse gênio infantil mas em pouqíssimo tempo o prodígio era convidado para se apresentar. Duquesas, Príncipes e até mesmo sua Majestade o Rei, todos o assediavam com convites que para o maior orgulho de sua mãe e até mesmo seu distante pai, pareciam nao acabar mais.. Um tempo mágico para Valmont se passou, um tempo repleto de recitais e apresentações que ele jamais pôde esquecer.

Muitas estações passaram e no com as folhas que se foram também se foi a criança, agora transformada em um galante rapaz.

No auge de seus dezessete anos, Auguste se considerava feliz e afortunado. Uma verdadeira sensação, sua fama alcançava a todos onde quer que estivessem.

Diziam que ele era um gênio, outros que era uma beldade e outros, poucos e atrevidos, diziam que ele devia seus dons ao Senhor das Profundezas.

Talvez por isso tivessem sido atraídos... certo é que um dia eles vieram.

Gritos desesperados se misturavam aos ganidos de um cão que havia perdido as pernas traseiras. Auguste abriu os olhos mas pensou que estava sonhando quando os viu: criaturas com um aspecto cadavérico gargalhavam enquanto uma figura semelhante a um demônio agarrava seu pai pelo pescoço e o erguia a dois metros de altura.

Medo, pavor, pânico, Auguste perdia o controle de suas funçoes intestinais enquanto via os cadaveres espalhados pelo hall da casa... seu irmão mais velho... sem os membros... como um toco no chão... tudo se somava aos berros de sua mãe que agora lutava contra um dos montros ao mesmo tempo que este dilacerava seu pescoço indiferente ao sangue que jorrava a borbotôes como de um verdadeiro chafariz.

Em uma fração de segundo, Auguste recobrou o controle. "As pistolas de meu pai!" ele pensou. Ele corria para a sala de estudos de seu pai, em busca da única salvação que eles poderiam ter. Seu desespero então foi maior quando viu que um deles estava logo a frente. Um deles estava entre a salvação de sua família e as pistolas.

Não sabia se aquilo era humano.... o aspecto distorcido de sua face, os ossos que brotavam como espinhos de sua pele por toda extensão de seu corpo... a forma como o chão rangia e se quebrava sob seus passos lentos e precisos, passos que o aproximavam mais e mais!!!

Auguste tomava um candelabro e se preparava para atacar a coisa quando algo explodiu em sua mente, algo que ele nunca havia conhecido antes.

A um comando da criatura ele perdia o controle de seus membros... o medo, o odio, a furia, nada disso o fazia se mover. Ele jazia imóvel, imóvel como uma ovelha à espera de seu algoz. Logo depois o ar lhe faltava, ele recobrava o domínio de si quando a criatura o suspendia e estrangulava como fez com seu pai, como se ele fosse um animal. Seu corpo se debatia ao som das gargalhadas histéricas do bando de animais que se deleitava com a cena. Tudo escurecia... escurecia lento demais.

-Eu preciso de mais! Me dê mais por Deus! - os berros acordaram Auguste.

Acorrentado na masmorra que há 100 anos atrás encarcerava os inimigos de sua família, Auguste abriu os olhos aos berros de sua mãe. A voz era de sua mãe, mas seu rosto...

Uma massa desforme de ossos e carne, talvez isso definisse aquilo que ele estava vendo quando recobrou a consciência. Uma abertura tornava visível a massa encefálica da criatura sem olhos que gritava pedindo mais, gritava com a voz de sua mãe.

- Soltem ela! - ele gritou, - pelo amor de Deus, de tudo que é mais sagrado, soltem a minha mãe!

- Sua mãe gosta de sangue imortal jovem Valmont, ha ha ha ha.

O demônio respondia, o demônio que estrangulou seu pai agora se deleitava com o desespero de sua mãe enquanto parecia moldar o seu crânio escancarado, ao seu bel prazer.

- Soltem ela! Demônios malditos, soltem ela agora!

Auguste gritava e tentava se libertar das correntes que agora dilaceravam seus pulsos mas nada que fizesse os fazia parar, nada!

Foi então que Auguste sentiu aquilo mais uma vez. A criatura o encarava e dizia um comando, um comando que ele se viu forçado a obedecer:

- Cale-se e observe.

Aquilo tudo durou tempo demais... Valmont observava enquanto aqueles seres se deleitavam moldando e retirando os membros de sua mãe um a um enquanto a alimentavam com seu sangue imundo, noite apos noite.

Não sabia se havia se passado uma semana ou um ano. Ele já não sentia fome, frio ou dor, ele não sentia mais nada. Foi então que ela surgiu.

Aquela mulher ruiva escancarava a porta de sua cela como se fosse feita de brinquedo. Mas era tarde demais.

- Resista! Não adormeça!

O choque que se apoderava de Auguste era um sintoma de hemorragia. Sem que se lembrasse, ele serviu de banquete às criaturas que o abandonaram ali, às moscas, em frente ao cadaver em avançado estado de decomposição de sua mãe.

Uma luz quente e distante aquecia seu corpo. Uma luz cuja natureza não imaginava existir atravessava as paredes da masmorra e parecia faze-lo levitar deixando seu corpo para trás... uma luz que partiu tao repentinamente como havia chegado.

Algo queimava em sua garganta, algo doce e ácido, algo de indescritível sabor, um sabor que ele nunca havia provado, um sabor de que ele precisava mais e mais!




Os anos passaram e com eles as décadas e com eles os séculos.

Haviam se passado mais de duzentos anos mas era como se tudo tivesse acontecido ontem, em sua memória marcada.

- Você teve outro pesadelo não foi? - Gabrielle perguntava.

Sua mentora o conhecia bem e, pelo que ficou sabendo depois, conhecia antes que pudesse engatinhar.

Gabrielle Valmont fora uma de suas ancestrais. O registro de sua família fala de uma jovem de cabelos ruivos, uma jovem que davam por morta por afogamento, aos 22 anos de idade.

- Tenha paciência - ela disse, - O momento de nossa vingança está mais próximo do que jamais sonhamos.

Um sorriso belo mas preocupado iluminava sua face enquanto dizia essas palavras.

Ela o havia treinado para aquilo por dois séculos e ela sabia que agora Auguste estava preparado.

- Vamos, chegou o momento de caçar.

Eques

Data de inscrição : 08/11/2010

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