SOBRE LOBOS E SOMBRAS

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SOBRE LOBOS E SOMBRAS

Mensagem por Krauzer em Seg Nov 21, 2016 12:20 pm

SOBRE LOBOS E SOMBRAS

Parte 1: Correndo Livre e Selvagem




  994 D.C, em meio aos bosques da atual Hungria.
  Os chamados “Bárbaros Germânicos” foram um grupo etno-linguístico indo-europeu, originários do norte da Europa. Suas tribos viviam em aldeias rudimentares, praticando uma economia comunal baseada na agricultura, pesca... e pilhagens. Quando suas terras se esgotavam, partiam à procura de outras, mesmo que estas já fossem ocupadas. Algumas destas tribos tiveram importantes papeis na história, como a queda e saque do Império Romano do Ocidente. Durante a longa noite, porém, a grande maioria de seus povos foram convertidos ao cristianismo. Algumas tribos ainda resistiam á transformação, apegando-se a velhos mitos e costumes.


  Os primeiros raios de sol da manhã iluminavam os campos da aldeia.  Erik despertava sentindo o cheiro da grama sob o sol matutino, e se levantava, deixando suas duas esposas para trás. A poligamia não era um costume comum de seu povo, mas ele tinha certos benefícios devido a sua descendência real, e pelo fato de sua tribo encontrar-se perigosamente em extinção. Erik, o nome dado no dia de seu nascimento, significava “Aquele que governa para sempre” ou “Aquele que reina como uma águia”. Um nome auspicioso, pois embora Erik nunca tenha se imaginado governando, foi estabelecido que ele seria o novo chefe da tribo após a morte do antigo ancião.
  Erik sempre fora um exímio guerreiro e caçador, com energia e predisposição para grandes contendas, bebedeiras, e dormir com jovens donzelas de sua tribo, mas tinha dúvidas se estava preparado para guiar seu povo. Ele era um guerreiro, uma alma livre, não um sábio.
  Ele caminha pelos campos de sua tribo, vendo crianças correndo livremente próximas ao bosque, e sua mente viaja para um passado distante, algumas décadas atrás, quanto sua maior alegria era correr pelos selvagens campos das arredondezas das terras de seu povo, apreciando a liberdade da ausência de regras para seguir, como um espírito ancestral das florestas, uma criatura selvagem, correndo livre pela floresta. Ele imaginava se seus filhos também gozassem desta sensação.
  Ele gostava de contar para seus filhos sobre glórias do passado, histórias sobre emocionantes conflitos, de um tempo que seu povo era constituído por guerreiros sanguinários, imbatíveis,  alguns dos quais, presenteados pelo próprio Odin, capazes de incríveis proezas, como se transformar em animais, sobreviverem a ferimentos que matariam o mais forte dos guerreiros e possuírem a força de 10 homens. Um dos mais conhecidos (e o preferido de Erik quando criança) era Arnulf, uma bestial força da natureza, que segundo a lenda, havia sido um guerreiro Godo, que incitou seu povo a enfrentar e derrotar o exército do Sacro Império Romano. Diziam alguns que ele ainda vivia nos dias de hoje, premiando os melhores e mais audaciosos guerreiros descendentes de seu povo.
  Erik é bruscamente acordado de seu devaneio por Adawolf, que vinha correndo lhe dar notícias vindas do Leste.

- Senhor, os Boyardos vem em nossa direção, cerca de no máximo dois dias!
- Quantos eles são?
- Como grama no campo, senhor!

  Erik sabia que este dia chegaria, e precisava ponderar suas decisões. Ele tinha três opções: evacuar a vila, salvando a pele de seus homens por mais algum tempo, até que fossem novamente encontrados, renderem-se e se submeterem ao governo do cruel Voivode, ou lutar. Erik mal precisava pensar para fazer sua escolha.

- Avise os homens, vamos nos preparar para a batalha! Que Valhalla nos espere.

  O ataque ocorreu durante a noite. O pequeno exército de Erik esperava, seus guerreiros armados com machados, lanças,  espadas do melhor aço forjado, além de arcos e flechas, vestindo poucas armaduras leves e improvisadas, e Erik á frente dos soldados, utilizando um capacete com chifres que o identificava como o líder, brandindo um enorme machado de batalha. Erik carregava a herança dos valorosos guerreiros de seu povo, possuindo um porte avantajado, ombros largos, membros fortes, longos cabelos e barba louros, e possantes olhos azuis. O exército inimigo era muito maior, composto de cavaleiros montados, vestindo armaduras pesadas, e marchava com força total em direção dos bárbaros.
  Em meio aos soldados do Voivode, Erik via estranhas criaturas, animais semelhantes a lobos monstruosos com diversas pernas, aranhas gigantes formadas por diversos corpos de cães interligados, entre outras criaturas demoníacas. Erik temia por seu povo, mas não recuaria.
  Os cavaleiros se chocam contra os bárbaros, e Erik consegue atingir o líder da primeira onda com seu machado, enterrando-o no tronco blindado do homem. Ele cai do cavalo, já morto, e Erik tentava desenterrar seu machado da armadura do cadáver, antes que fosse atingido pelo cavaleiro ao seu lado. O machado é arrancado violentamente do tronco do homem, partindo sua armadura, fazendo jorrar sangue escuro, e expondo suas vísceras e costelas, e choca-se com a espada do cavaleiro, no exato momento em que ela atingiria o pescoço de Erik. A espada do cavaleiro é estilhaçada pelo potente machado, mas Erik é atropelado por seu cavalo, sendo jogado a vários metros de distância.
  Seus guerreiros lutavam bravamente, mas estavam sendo massacrados, Erik tentava se levantar o mais rápido possível, enquanto o cavaleiro corria com seu cavalo para cima dele. Erik gira o corpo, e golpeia o cavalo no estômago, derrubando o soldado no chão. Sua armadura pesada dificultava seus movimentos enquanto ele se levantava tarde demais para defender-se do golpe de machado que se enterra em seu elmo. Erik novamente tenta retirar seu machado da armadura do guerreiro, o que o faz abrir a guarda por uma fração de segundo, na qual é golpeado pelas costas por um cavaleiro com uma espada larga.
  O corte havia ferido sua coluna, e ele tinha dificuldades de se manter de pé, mas não se entregaria. Ele podia ver casas queimando á sua volta, dezenas de corpos no chão, a maioria do seu próprio povo. Não havia como vencer, mas ele lutaria até o fim, esperando que as Valkirias encontrassem seu corpo em meio a esta carnificina.
  O cavaleiro dá a volta e conduz o cavalo novamente em sua direção. Com um esforço descomunal, Erik arranca o machado do crânio do guerreiro caído, e o arremessa contra o soldado que investia contra ele, atingindo-o no peito e fazendo com que ele caísse morto do cavalo. Mas o animal continuava correndo em sua direção, e Erik não consegue se esquivar, sendo atropelado pela criatura.
  O guerreiro germânico sacava uma faca de caça, mas mal conseguia se manter de pé, quando percebe que estava sozinho contra dezenas de soldados blindados.





- POR MEU POVO! - Gritava ele, segurando sua adaga de forma ofensiva, enquanto diversos cavaleiros investiam contra ele.

  Subitamente, uma enorme criatura surge das sombras e ataca o primeiro cavaleiro que investia contra Erik, derrubando-o do cavalo e matando-o instantaneamente. A criatura uiva, e os cavalos estremecem, recusando-se a atacarem-no, e alguns até mesmo derrubando seus cavaleiros que tentavam força-los. A criatura (que mais tarde, Erik percebeu tratar-se de um humanoide) corria com velocidade sobre-humana sobre os cavaleiros, matando-os com potentes golpes com garras que atravessavam suas armaduras como seu fossem de pano. Os soldados que tinham tempo de golpeá-lo, mal pareciam ferir seu couro. Os guerreiros restantes batem em retirada, enquanto são perseguidos pela besta enfurecida.
  Erik tenta se mover, quando percebe que havia sido atingido nas costas por uma flecha. Ele não conseguia respirar corretamente, e sua visão já começava a sair de foco. Ele desaba no chão, tentando inutilmente retirar a flecha de suas costas, quando percebe que a criatura estava de frente para ele. Erik nunca havia visto nada igual, ele parecia um homem barbudo, desgrenhado, sujo e vestindo peles rasgadas, mas possuía traços animalescos em sua fisionomia, e seus olhos... seus olhos eram como os de uma besta, uma besta que acaba de encontrar sua presa. Erik encarava aqueles olhos, sabendo que seria a última coisa que veria em sua vida, quando se dá conta de que, de alguma forma, sabia que aquele era Arnulf, e ele o havia escolhido para dar sua benção.

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  Erik corria pelas matas onde seu povo havia habitado anteriormente, seu sangue cantava, nunca imaginou tal força, tal vigor, tal velocidade, tanta agudez de seus sentidos. O cheiro da terra, da flora... o cheiro suave dos animais da noite, cada odor era único, e seus olhos... seus olhos podiam enxergar na noite como nunca antes. Diante dele, um novo e inexplorado mundo. Desejos e emoções cruas lutavam dentro dele, como uma besta selvagem querendo escapar, uma necessidade de saciar sua fome, satisfazer sua sede, e bem no fundo de tudo isso, uma fúria primal, estrondosa e eriçada, pronta para explodir. Mas ainda assim, ele se sentia estranhamente confortável, como se agora pudesse ser aquilo que sempre sonhou, ou que sempre fora, mas as amarras humanas o impediam de revelar. Ele era como um espírito ancestral das florestas, uma criatura da noite, correndo livre e selvagem pelos campos.
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Re: SOBRE LOBOS E SOMBRAS

Mensagem por Krauzer em Ter Nov 22, 2016 10:06 am

Parte 2: O Alfa do Bando







        Os pés de Erik pisavam em grama congelada, o frio não o importunava tanto quanto outrora, mas ainda assim ele se vestia com peles de lobo, toscamente costuradas. Logo atrás dele, vinha sua alcateia. Ele não tinha certeza de quanto tempo havia se passado desde sua transformação, ou aonde suas andanças o levavam. Ele havia migrado consideravelmente para o Sudeste, talvez já estivesse adentrando os territórios da Romênia?! Pouco importava, hoje em dia, ele pouco ligava para estas fronteiras arbitrárias que os humanos usavam para se aprisionarem.
        Erik vê ao longe sua presa, uma corça bebendo solitária de um leito que ainda não havia congelado. Quando abatesse sua caça, ele ficaria com os principais espólios, o doce néctar da corça, enquanto sua alcateia se banquetearia com os restos da carne do animal. Os olhos do Gangrel se estreitam, mas seus pensamentos viajam por um segundo que se estende. Memórias de sua transformação inundavam sua mente.

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        De alguma forma, Erik entendia que precisaria morrer para ser abençoado. Arnulf suga sua vida, para em seguida lhe dar uma nova. Ele renascia como uma nova criatura.
        Arnulf falava com uma voz rouca, que soava como um rugido, e suas palavras eram lentas e desencontradas, como se aquele que as pronuncia houvesse perdido o hábito de usa-las regularmente. Ele falava em uma versão arcaica da linguagem que Erik costumava se comunicar com seu povo. Ele lhe ensinou o básico para sobreviver, o acompanhou por três noites, e o abandonou ao perceber que este já era capaz de cuidar de si mesmo.
        As primeiras noites foram uma experiência totalmente nova. Erik era uma criança da noite, aprendendo a engatinhar seus primeiros passos nas trevas. Na sexta noite desde sua bênção, Erik é cercado por uma matilha de lobos. Ele tenta se comunicar com os animais, mas ainda precisaria praticar melhor seus dons. As feras estavam famintas, bem como a fera dentro de Erik. A matilha era organizada, e o ataca com sincronia. Erik saca sua faca de caça, procura se desviar dos avanços das criaturas, enquanto tentava golpeá-las. Ele já havia matado lobos antes, mas essa alcateia possuía alguma peculiaridade que a diferenciava das outras. Os dentes dos animais rasgam sua pele, e a besta dentro dele lutava para se libertar e dilacerar o inimigo. Erik mantinha o controle e golpeava os lobos, da forma mais precisa possível, procurando pontos vitais, enquanto os ataques se tornavam mais rápidos e furiosos. O cheiro do sangue em sua lâmina o distraia por um breve instante, dando tempo para o alfa da matilha saltar diretamente em sua jugular. Esta era a deixa que a alcateia estava esperando, os ataques anteriores eram apenas uma distração.
        O lobo enterra os dentes em sua artéria, mas o efeito não sai exatamente com o animal esperava. A artéria é rasgada, mas o sangue não jorra dela. O ferimento não o mata, mas foi a gota d’agua que faz sua fera tomar o controle. Sua visão embaça, ele enxergava tudo em tons de vermelho, e de repente percebe que não tem mais controle de suas ações. Seu corpo rugia como uma fera, ignorando ferimentos, enterrando profundamente a adaga no coração de um dos lobos, no exato momento em que um segundo ataca-o diretamente no rosto. Erik se aproveita e enterra seus caninos na garganta do lobo. O sangue lhe preenchia os lábios, doce como a vida, mas ele não poderia deleitar-se demais neste prazer, pois a luta ainda não havia acabado.
        Os demais lobos se afastam, formando uma espécie de circulo em volta de Erik, apenas o alfa da matilha se aproximava dele. O lobo salta, mas Erik o atinge diretamente no olho, o derruba no chão, rasga seu peito com um único golpe de sua faca, enterra sua outra mão dentro de seu corpo, e arranca seu coração, levantando-o no ar, e se alimentando de seu néctar.
        Erik voltava a si, encontrando-se devorando o coração do lobo, seu sangue escorrendo por seu pescoço, empapando sua barba, e os demais lobos apenas observavam a cena. Erik se volta para eles, e eles se retraem, em sinal de submissão. O Gangrel havia devorado o alfa da matilha, agora ele seria o novo alfa!

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        Cuidadosamente, Erik passava as ordens á sua matilha, utilizando seus dons para se comunicar na linguagem deles. Dois lobos iriam na frente, cercar a corça, para que ela não fosse fugir. Erik correria em sua direção, com o restante da alcateia em seu encalço. Aquilo alimentava seus instintos mais primitivos, instintos que os humanos se recusavam a abraçar, o prazer da caçada, a verdadeira caçada, o fazia se sentir mais vivo do que quando seu coração ainda batia.
         A corça percebe o avanço, mas um vulto negro, contrastando com o clima gelado no local, chega nela primeiro. Um grande lobo negro, com uma musculatura mais poderosa que a dos lobos da alcateia de Erik salta sobre ela antes que ela pudesse fugir, e com uma poderosa mordida em sua jugular, a abate rapidamente.
        A alcateia de Erik se afasta, e seus olhos se encontram com os olhos do grande lobo negro, que rosna furiosamente para ele. Erik o entendia, ele havia abatido a presa primeiro, este deveria ser seu espólio, mas Erik sentia que seu rosnado emitia uma fúria que ia muito além do fato do lobo querer lutar pela comida. Não, esse lobo reconhecia o que Erik era, e isso o enfurecia como nada mais poderia enfurecer.
        Erik se preparava para enfrentar o lobo e provar sua dominância para a alcateia, quando subitamente o lobo se transformava em uma enorme criatura, semelhante a um lobo humanoide, ainda mais alto do que Erik e com um porte físico extremamente superior. Arnulf havia mencionado algo sobre homens fera que espreitavam nas florestas, e lhe advertiu a evitar tais criaturas, mas Erik não poderia demonstrar sinais de fraqueza diante de seu bando. As enormes garras e presas da criatura seriam o suficiente para intimidar qualquer um, e Erik era apenas uma criança da noite, não tinha ideia de como derrotar a criatura.




        A monstruosidade rosna novamente, eriçando os pelos da nuca de Erik, e este retribui o rosnado, aceitando o desafio. Com um brusco movimento, a criatura se desloca diretamente até Erik, com uma velocidade surpreendente para algo de seu tamanho, e lhe golpeia com suas garras, rasgando –o do peito ao estômago, expondo seus intestinos.
        Erik cai, derrotado, antes mesmo da luta começar, tentando manter suas vísceras dentro do corpo. A criatura uiva em vitória, o levanta do chão com apenas uma mão, e o arremessa a vários metros de distância, como se fosse um monte de trapos. Erik aterrissa no lago semi-congelado e perde os sentidos.
        Erik não sabia quanto tempo havia ficado inconsciente, mas acorda no fundo do lago gelado, e nada até a superfície. Suas tripas ainda escorrendo para fora, por alguma razão, ele estava tendo dificuldade em curar estes ferimentos. Quando volta ao local, a corça havia sido totalmente devorada, e sua alcateia o havia abandonado. Ele não os culpava, agora eles tinham um alfa mais poderoso para seguir, e Erik havia aprendido uma dura lição, ele não era o único senhor da noite a perambular pelos bosques.
        Após passar dias escondido, se alimentando do sangue de pequenos animais, até conseguir se recuperar totalmente, o Gangrel deixa o território do grande lobo negro, jurando que em breve, voltaria mais forte, pronto para sua desforra.
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Re: SOBRE LOBOS E SOMBRAS

Mensagem por Krauzer em Qui Nov 24, 2016 10:11 am

Parte 3: Garras-de-Trovão

Em um antigo castelo dos Cárpatos da Romênia.






        "Do jeito que se encontrava no reparo, Gregor, o Terrível, aspirante a Voivode, parecia um orgulhoso portador de um estandarte, seu mato curtido balançava com o vento noturno. As tochas abaixo eram reflexos tênues de seus olhos, que brilhavam como fogueiras, graças ao entusiasmo pela vitória.
        A Condessa Natássia, criadora de lobos e escultora de ossos, não era mais do que cinzas ardentes. Seus carniçais não passavam de corpos amontoados no pátio, e o odor acre de suas peles dilaceradas se insinuavam e faziam cócegas no nariz torto de Gregor. Tudo ocorreu conforme o planejado. O olhar de medo dela fora perfeito, a caçada maravilhosa- e sua tentativa final de resistir ao parapeito parecia uma obra de arte. Seus... “aliados” seguiram sua vontade obedientemente, como os cães que pareciam ser. A princípio eles foram hostis, mas suas promessas hábeis os acalmaram. Como cães.
        Agora ele, e apenas ele, governaria os picos negros dos Cárpatos que cercavam o vale, sangue correria pelo rio se essa fosse sua vontade; o solo seria fertilizado com carne se ele assim desejasse. Ele riu longa e intensamente, continuando até que os ecos de sua voz ressoassem nos salões vazios do castelo.
        O riso do jovem vampiro foi interrompido por um ruído profundo, como o som de uma avalanche de rochas, e Gregor conteve seu sorriso – o bárbaro corpulento no corredor havia limpado a garganta para chamar sua atenção, como um mordomo respeitoso. Gregor virou-se sobre seus calcanhares, fitando os olhos dourados da criatura.
- Esses foram os últimos vampiros a se oporem a você, Gregor... meu Voivode? – A voz da besta era quase humana. Quase...
- Sim – Ele sorriu levemente – essa era a última, agora, meu aliado fiel, reinaremos supremos na noite- Para criar um efeito, ele fez um floreio com as mãos – Acredito que você queira que eu lhe pague agora. Eu o farei de bom grado. Na verdade, eu realizarei  um festim em sua homenagem, agora que a vitória está completa- Seu sorriso era mordaz – Quais são os seus... desejos? Mulheres? Ou jovens garotos? Vinho? Aço e escravos? Sangue quente?
        O lobisomem era uma mancha negra. Gregor o via no final do pátio, seu braço girando várias vezes antes que ele compreendesse o que estava acontecendo. O vampiro viu rapidamente a arma de prata levantada no ar, e então sua cabeça voou, desprendida de seus ombros.
- Agora, sanguessuga, a vitória está completa- Garras-de-trovão uivou longa e intensamente pela vitória, até que os ecos de seu uivo, e os uivos de sua matilha em resposta, ressoassem nos salões vazios do castelo.” *

        O guerreiro sempre ouvira que era preciso conhecer o mal para conquista-lo, e em suas terras, o males eram abundantes, sobretudo os de rosto humano. Sua tribo não aceitava estar em segundo lugar, eles não eram seguidores, muito menos de monstruosidades da Wyrm. Não, eles eram os conquistadores, os verdadeiros lordes destas terras, todos, sejam humanos, crias da Wyrm ou mesmo outros Garou, deveriam submeterem-se a eles. Como nenhuma outra tribo, eles sabiam negociar com as criaturas da noite... embora negociar não seja a palavra certa, pois seu código apenas os permite negociar com seus iguais. Não, eles não negociam com os sanguessugas, eles apenas os usam para seus propósitos, colocam uns contra os outros e os descartam quando não são mais necessários. Eles eram os verdadeiros senhores da noite, os reis por direito das terras dos Cárpatos, eles eram os Senhores das Sombras.



• Trecho retirado do livro: “Lobisomem – A Idade das Trevas”
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Re: SOBRE LOBOS E SOMBRAS

Mensagem por Krauzer em Sab Nov 26, 2016 10:55 am

Parte 4: A Fera Interior





THE TYGER


Tyger Tyger, burning bright,
In the forests of the night;
What immortal hand or eye,
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies.
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand, dare seize the fire?

And what shoulder, & what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?

What the hammer? what the chain,
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp,
Dare its deadly terrors clasp!

When the stars threw down their spears
And water'd heaven with their tears:
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tyger Tyger burning bright,
In the forests of the night:
What immortal hand or eye,
Dare frame thy fearful symmetry?


- William Blake


         Erik corria por entre as árvores dos bosques da Romênia, até encontrar uma pista no chão. Uma pegada grande demais para ser de um homem ou de qualquer animal que ele conhecia. Também não parecia pertencer a uma das aberrações Tzimisce, era de uma besta da lua!
         O Gangrel uiva para a lua, avisando sobre seu achado. Logo sua nova alcateia estaria ali. Sua nova alcateia, composta por outros irmãos no sangue.


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         Garras-de-Trovão sentia um cheiro estranho no ar, cheiro de cadáveres caminhantes, profanando os bosques de sua tribo.  Um uivo denunciava sua posição. O Garou sabia que podia se tratar de uma emboscada, então chamaria o resto de seu bando para a caçada.
         De todas as criaturas da Wyrm, estas eram as que mais detestava, as que mais infestavam suas terras. Para cada cria que destruíam, duas pareciam tomarem seu lugar.


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         Erik sabia quão arriscada era sua aproximação, mas seu bando não pretendia fugir das bestas da lua para sempre, eles os expulsariam deste território, ou matariam a todos. Tempo havia se passado desde seu primeiro encontro com um lupino, agora Erik era uma criança mais experiente, suas habilidades mais desenvolvidas, e ele estava sedento do potente sangue lupino.
         Seu bando o encontra, e estes se preparam para o iminente confronto.  O grupo era comporto de outros bárbaros, alguns com traços bestiais em sua fisionomia, que os aproximavam mais das bestas que iriam enfrentar. Garras crescem em seus dedos, eles as afiam em árvores e rochas, marcando seu território,  em desafio aos lobisomem que reclamavam estas terras.


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         Os Garou corriam contra o vento, percebendo que o cheiro havia se tornado mais forte, que o grupo havia aumentado. Haveria mais sangue derramado esta noite, e desmembrar mortos vivos era um deleite para o bando de Garras-de-Trovão.
         Os lobisomens percebem em cima da hora que estavam cercados, e diversos vampiros bestiais saltam detrás de árvores e moitas, diretamente em seus pescoços. O grupo dos sanguessugas era maior, mas isso pouco importava, Garras-de-Trovão acreditava que cada membro de seu bando era páreo para dez  mortos vivos. O confronto se acirrava, bestas estavam se enfrentando, os grunhidos vindos do local afastavam qualquer animal que ousasse se aproximar, a atmosfera era pesada, brutal, garras se cruzavam, dentes arrancavam pedaços de pele e couro, membros eram decepados, sangue misturava-se ao solo como lama avermelhada, o frenesi tomava conta de ambos os lados, já não importava mais quem fazia parte de qual bando, a carnificina despertava a besta selvagem dos lobisomens e a besta primordial dos vampiros, e elas vinham á tona sedentas .
         De repente, os olhos de Erik se encontram com os de Garras-de-Trovão, e em meio ao combate, eles se reconhecem. Erik ainda carregava as cicatrizes de seu confronto anterior, em seu abdome, por alguma razão, estas cicatrizes se recusavam a abandona-lo, e isso lhe dava uma ideia de como era perigoso enfrentar uma criatura como essa.










         Erik viera preparado, ele saca uma lâmina de prata (o metal que segundo as lendas, era letal para as feras da lua) e corre em sua direção. A criatura o golpeia antes que ele consiga atingi-la, jogando –o contra uma rocha. Ele perde sua lâmina, mas ainda possuía suas garras, e as usa quando percebe que o monstro já estava em cima dele. Erik dá um golpe de sorte, ferindo os olhos da criatura, que uiva de dor. Como retribuição, ela o golpeia novamente no estômago, e Erik sentia as garras da besta dilacerando seus órgãos internos.
         A humanidade já havia abandonado a ambos, esta era uma luta de bestas. O lobisomem ergue o Gangrel no ar, ainda com suas garras dentro dele, e o vampiro se aproveita para saltar contra o rosto do lupino, enterrando suas presas em seu olho ferido, arrancando seu globo ocular da orbita craniana, e esmagando-o com os dentes, o potente sangue era como fogo líquido em sua boca, e levava sua besta á loucura. Ele apenas cometera o erro de aproximar-se demais das mandíbulas da fera, que se fecham em seu tronco já ferido. Se não fosse por sua resistência sobrenatural, Erik teria sido praticamente partido ao meio, mas ele pouco ligava, e continua a golpear o rosto da criatura com suas garras, incessantemente. Um golpe devastador desloca a mandíbula do Gangrel, que cai no chão, quase inconsciente, quando ele percebe que não sentia suas pernas. O rosto do lupino era uma maça ensanguentada e disforme, e sua regeneração parecia não ser tão poderosa contra as garras e dentes de Erik.
         O lupino praticamente cego, farejava no ar a procura de seu rival, para dar-lhe o golpe fatal. O vampiro, incapaz de se mover, esperava conseguir atingi-lo na garganta e levar a besta consigo para o túmulo. Erik podia ver suas entranhas ainda penduradas nas garras da criatura.
         O combate parecia estar prestes a se findar, quando uma chuva de flechas em chamas os surpreende. Os poucos lupinos e sanguessugas ainda de pé procuravam a fonte dos disparos, quando um bando de cavaleiros montados, os ataca pelas costas.

- Não matem todos, Lorde Rustovich deseja alguns exemplares vivos!

         O lobisomem cego derruba um dos cavalos que investia contra ele, mas é atingido nas costas por uma chuva de flechas, caindo aparentemente desacordado. O líder dos cavaleiros caminha até Erik, que rosnava no chão, incapaz de se levantar, e a última coisa que o Gangrel vê antes de perder a consciência é o pé do cavaleiro em direção ao seu rosto.
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Re: SOBRE LOBOS E SOMBRAS

Mensagem por Krauzer em Qua Nov 30, 2016 1:50 pm

Parte 5: O Senhor dos Cárpatos




        Erik era acordado com um balde de água fria em seu rosto. Ele encontrava-se em uma enorme masmorra, iluminada por diversas tochas nas paredes, e não estava sozinho, alguns dos seus companheiros também estavam lá, assim como diversos bárbaros feridos que ele não conhecia. Estavam todos acorrentados pelos pulsos, enquanto soldados os acordavam.


- Acordem, bestas, Lorde Rustovich vai falar!


         Um homem de armadura negra caminhava até eles, seguido por dois soldados. O homem tinha o porte de um guerreiro, os modos de um lorde e uma presença aterradora. Ele cheirava à morte, era um morto-vivo.





       










- Os ardilosos Senhores das Sombras e os bárbaros Gangrel vem ameaçando a supremacia dos Voivodes na Transilvânia há muito tempo. Devo admitir que estes pequenos conflitos foram em diversas vezes, divertidos, e meus soldados adoraram banquetearem-se no sangue de seus homens, mas seus ataques já foram longe demais...


         Enquanto o homem falava, ele caminhava por entre os prisioneiros. Um deles, um bárbaro cego e com o rosto desfigurado por garras... as garras de Erik, tenta soltar-se das pesadas correntes de prata para alcançar o lorde, mas é atingido no estômago por um dos guardas, e Rustovich continua sem nem ligar para a tentativa de ataque.


- A ousadia de se aproximarem de minhas terras custará muito caro. Se eu quisesse, poderia mata-los agora mesmo, mas uma afronta direta como esta merece ser melhor punida. Que seu erro sirva de lição para os outros de suas espécies, pois nós lhes mostraremos seu verdadeiro lugar, que é beijando o solo que os Voivodes pisam.

   
         Seus olhos encontram os de Erik por alguns segundos, eles pareciam poços de um abismo infinito, e o Gangrel sente que o Voivode podia observar dentro de sua alma.


- Nesta noite, vocês pagarão seus pecados fazendo parte de uma caçada especial. Sempre ouvi dizer que as feras lupinas e as bestas do clã Gangrel possuem uma grande afinidade, e essa afinidade será testada esta noite. Basicamente, vocês serão soltos em minhas terras, e deverão escapar antes que minhas criaturas os encontrem. Aqueles que forem capturados, serão torturados até a morte por meus moldadores de carne nestas masmorras, aqueles que conseguirem escapar, terão sua liberdade, desde que não retornem nunca mais e comprometam-se em espalhar a palavra da benevolência do grande Voivode dos Voivodes, Lorde Vladimir Rustovich!


         Muitos bárbaros gritam e proferem ofensas contra o lorde, mas são surrados por seus guardas até se calarem.


- Obviamente isso não será tão simples. Para  tornar este jogo um pouco mais divertido, vocês serão divididos em diversas duplas, cada uma contendo um membro de cada laia, acorrentados, tendo de agir como se fossem um único indivíduo. Meus moldadores de carne já tentaram fundir a pele dos membros deste jogo, mas por alguma razão, a carne e o sangue dos lupinos e dos vampiros não parecem ser compatíveis, então, correntes entrelaçadas em seus órgãos vitais terão de ser o suficiente para mantê-los unidos neste pequeno jogo.


         Ele fazia um gesto, e um de seus criados corria para lhe trazer uma taça de vitae fresca, que ele erguia no ar, como que brindando com outra taça invisível.


- Brindemos, irmãos, pois esta noite, aqueles que se acreditavam predadores, serão as presas! Nesta noite, brindamos pela vitória dos Tzimisce, os incontestáveis senhores desta terra, que os jogos comecem!
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Re: SOBRE LOBOS E SOMBRAS

Mensagem por Krauzer em Sex Dez 02, 2016 5:32 pm

Parte 6: Corações Acorrentados




         O asqueroso clã dos Tzimisce não carregava a alcunha de “Demônios” á toa. Em todos os seus anos de vida, e os recentes de não-vida, Erik jamais havia presenciado tamanhas atrocidades quanto nas masmorras do castelo de Rustovich.























         O termo “moldadores de carne” não era apenas um título ou força de expressão, e Erik sentiu em sua própria pele os poderes deste tenebroso poder. Pesadas correntes foram entranhadas nos corações e órgãos internos do Gangrel e do homem-lobo cego. Erik podia ver as correntes saindo de seu corpo sem nenhum sinal de abertura, como se sempre  tivessem feito parte de seu corpo. Ele sentia seu frio gélido em suas entranhas, e qualquer movimento brusco das correntes (como tentativas de quebra-las) provocava gemidos de dor no Lobisomem, cujos órgãos internos aparentemente continuavam funcionando como nos mortais.
         As duplas foram divididas (todas compostas por um Gangrel e um Lupino) e conduzidas com braços e pernas acorrentados até fora do castelo. Erik sentia que seu “companheiro” talvez pudesse partir as correntes em sua forma monstruosa, mas as chances dele sobreviver no processo eram mínimas.
         Os soldados mandam plebeus comuns e continuarem levando a dupla pelas terras e lhes entregam as chaves das algemas para libertarem a ambos. Vladimir possuía uma mente cruel, ele havia mandado peões descartáveis pois sabia que seriam mortos assim que abrissem as algemas, e seu sangue renovaria a metade vampírica das duplas.
         Ao terem seus braços e pernas livres, ambos atacam os mortais. O homem lobo assume sua forma monstruosa e Erik mostra suas garras da besta. Os plebeus são massacrados em segundos, mas quando Erik abaixa-se sobre um deles para beber seu sangue, sua dupla lhe segura pela garganta, rosnando para ele. Mesmo cego, o monstro possuía sentidos aguçados, o cainita podia ver a órbita vazia do globo ocular que ele havia arrancado com os dentes, e o outro olho da criatura havia sido perfurado pelas garras do vampiro. Erik sentia o bafo quente do monstro em seu rosto, e percebeu que caso ele fosse morto, o lobisomem poderia fugir com maior velocidade. O monstro preparava suas garras para dar o golpe de misericórdia no Cainita, quando uma voz á milhas de distância lhes avisava que o tempo de vantagem havia acabado, e as monstruosidades de Rustovich estavam vindo caça-los.

- SOLTE-ME, IDIOTA! SE ME MATAR, COMO VAI ENCONTRAR O CAMINHO PARA FORA DAQUI ANTES DE SER ALCANÇADO?!

         A criatura se enfurece ainda mais com o grito de Erik, mas por alguns segundos, pondera suas opções. O som de cavalos trotando ao longe o ajuda a tomar uma decisão.

- Se sobrevivermos, permitirei que vá em paz, verme! – A voz monstruosa saia de suas mandíbulas e soavam como enormes rochas se chocando. E a pressão na garganta de Erik se suavizava.
- Para qual lado?

- Siga-me, monstro!

         O lobisomem conseguia acompanhar o ritmo de Erik de forma surpreendente para alguém que acabou de ter sua visão perdida. Em dado momento, ele escuta ruídos, e ambos precisam se esconder atrás de um amontoado de pedras. A criatura assumia uma forma híbrida, uma espécie de homem grande, peludo e selvagem, para poder se esconder mais facilmente. Alguns segundos depois, Erik também ouve o ruído, e um pequeno grupo de animais monstruosos se aproximava. Pareciam uma cruza entre cavalos e cães de grande porte. Eles farejavam a ambos e logo os encontrariam, eles precisavam agir rápido.










         Erik se sobressalta, saindo do esconderijo e tentando se comunicar com os animais, mas isso não surte o efeito esperado... Quando as bestas investem contra eles, soltando um horrível rugido que não pertencia a nenhuma criatura de Deus, o lobisomem salta á sua frente, já transformado. Ele praticamente decapita o primeiro com um único golpe de suas garras, errando por pouco o segundo que enterra suas presas em seu ombro. Erik golpeia a jugular da criatura com suas garras, e um sangue arroxeado jorra pelo chão.
          O local onde a besta havia mordido o lupino desenvolvia bolhas e inchaço no couro da criatura. O sangue dela possuía um odor horrível, e Erik se sentiu pouco tentado em provar dele.
De repente, outro som chamava a atenção de Erik e Garras-de-Trovão, o som de diversos cavalos, acompanhado de vozes humanas. As duas criaturas que eles haviam acabado de matar eram apenas um chamariz, apenas serviam para enfraquece-los e revelar sua posição com seus rugidos estridentes.

- Rápido, qual direção?- Perguntava o lobisomem.

         Erik lhe mostrava o caminho, sabendo que eles não seriam capazes de vencer os cavalos na corrida.

- Segure em mim!- Disse o lupino.

- O que?

- DEPRESSA!

         Erik o segura, momentos antes dele passar por uma nova transformação. Agora ele se parecia com um gigantesco lobo negro, quase do tamanho de um cavalo. Erik sobe nele, que começa a correr em uma velocidade surpreendente. Ocasionalmente a fera parecia prestes a tropeçar, então o Gangrel a vai guiando.
         O grupo de cavaleiros finalmente os alcança e começa a persegui-los. Seus cavalos pareciam se deslocarem em uma velocidade superior a cavalos normais, sobretudo pelo fato de estarem carregando soldados com armaduras pesadas enquanto galopavam. Eles disparam uma chuva de flechas contra ambos, a maioria erra o alvo, mas algumas o encontram. Por estar nas costas do lobo, Erik absorve a maior parte do impacto, sendo trespassado por três flechas. Por sorte, nenhuma havia atingido seu coração, mas sua besta interior estava prestes de vir á tona. O lobo, atingido em um tendão, diminui a velocidade, e eles eram alcançados por alguns cavaleiros. Com uma surpreendente sincronia, Erik golpeia o cavaleiro da esquerda com suas garras, fazendo-o cair do cavalo e ser atropelado pelos outros cavaleiros, enquanto o lobo abocanha o pescoço do cavaleiro da direita, fazendo tanto ele quanto o cavaleiro caírem no chão, impedindo por alguns segundos o avanço dos demais soldados. O esforço, porém, teve seu preço, o lobo gigante acaba tropeçando, derrubando junto o Gangrel que o montava, e diversos outros cavaleiros que os seguiam.
         Aquilo foi demais, tanto para Erik, quanto para Garras-de-Trovão, que á beira da inconsciência, despertam ambos, suas feras interiores. O que se seguiu foi um banho de sangue, que regou o solo, juntamente com vísceras, membros decepados, e amontoados de carne dilacerada do que um dia foram cavalos e homens. As correntes que uniam a dupla tiniam e se entrelaçavam, tamanha a ferocidade dos movimentos de ambos, mas mesmo isso não foi o suficiente para impedi-los de descarregarem toda a sua ira sobre os inimigos.
         Nenhum homem ou fera jamais se lembrará do que ocorreu naquele momento, mas quando Erik voltava a si, ele via-se pisando em órgãos humanos, seu corpo, cabelos e barba totalmente empapado por sangue fresco, e próximo a ele, a única criatura ainda viva, era o lobisomem, que agonizava no chão. Erik acabava de perceber que as correntes não mais os ligavam, tendo sido arrancadas no calor da luta. O Gangrel podia ver seus intestinos expostos, como grandes vermes querendo fugir de seu corpo e uma única corrente ainda presa em seu peito. O lupino não teve tanta sorte, suas tripas estavam espalhadas pelo sangrento campo de batalha, ainda entrelaçadas em correntes, e misturadas a dezenas de membros, corpos e vísceras de outros indivíduos. A corrente que ligava seu coração ao coração de Erik havia se soltado do lobisomem, danificando profundamente o órgão que ainda bombeava seu sangue.
         Erik caminha até o lobisomem caído, segurando suas vísceras para dentro do corpo. A criatura agonizava, e estes provavelmente eram seus momentos finais. Ele estendia sua mão com garras para o Gangrel e se esforçava para falar.

- V... vá para... o leste... v... diga a meus irmãos...eles... me vingarão!

- Seus “irmãos”?! Eles me matarão assim que me virem!

         O lobisomem estendia seu indicador e desenhava com sua garra, um símbolo na pele do ombro do vampiro. Erik sabia que a cicatriz demoraria para desaparecer.

- Mostre isso... a eles...eles

         Então a fera desabava, em seu último suspiro. Possivelmente a cicatriz que ele havia feito no ombro do Gangrel era um sinal de reconhecimento para que sua tribo não o atacasse. Pelo menos era o que Erik esperava. Ele se banqueteia com o sangue ainda fresco dos cadáveres que ele e o lupino haviam mutilado e desmembrado, mas não prova o sangue do lobisomem, por respeito ao mesmo. Não haveria tempo de fazer um funeral para este guerreiro, portanto Erik pensava que esta era a única forma de honra-lo em sua morte. O próximo passo do cainita seria seguir as instruções do lupino, rumando para o leste, esperando ter a chance de em breve vingar seu clã!







OFF:
Desculpem pelo clichê "Vampiro e lobisomem unindo forças para sobreviverem" mas sempre quis introduzir esta cena em uma crônica e nunca tive a oportunidade!
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Re: SOBRE LOBOS E SOMBRAS

Mensagem por Krauzer em Seg Dez 05, 2016 9:18 pm

EPÍLOGO





1194 D.C, florestas da Boêmia.

         Um lobo branco corria livre e selvagem pela mata, aparentemente sem se importar com os problemas que a civilização humana criava em torno de si mesma. O lobo para abruptamente, fareja o ar, e espera.
         Alguns instantes depois, um lobo negro surge por entre a mata, caminhando lentamente em sua direção. Os dois lobos se encaram e sentem o cheiro um do outro. Apesar do lobo branco aparentar e ter o odor de um lobo, seu coração não batia, e seu sangue não circulava. O odor do lobo negro também era semelhante ao que um lobo deveria ter, mas havia algo mais que o entregava, praticamente imperceptível, exceto para que possuísse sentidos extremamente aguçados.
         Eles se reconhecem, e mudam de forma. O lobo branco assume a forma de um grande homem peludo, desgrenhado e selvagem, vestindo peles e farrapos, com cabelos e barba louros e sujos e modos rudes. Seus olhos azuis refletiam a pouca luz das estrelas que atravessavam a cortina produzida pelos altos pinheiros que os rodeavam, suas orelhas eram levemente pontiagudas, e ele continuava a exalar um odor canino mesmo em sua forma humana. O lobo negro assume a forma de um enorme híbrido de homem e lobo, mas sua linguagem corporal não indicava agressividade.


-  Os de sua espécie voltaram a violar o tratado! – Diz o lobisomem, com uma voz que faria qualquer humano normal ter pesadelos.

- Eles não são da “minha espécie”, eu juro lealdade apenas ao clã Gangrel, e nós nunca violamos o pacto nestes 200 anos!- Responde Erik.

         O lobisomem o encara, o bárbaro podia possuir um porte físico avantajado em comparação a um humano, mas o lobisomem possuía pelo menos o dobro de seu peso. Ainda assim, Erik nem mesmo piscava ao encarar os olhos da besta-fera.

- Um estranho grupo de magos mortos vivos vem caçado nossos parentes, tanto humanos como lupinos, fazendo experimentos com eles, não continuaremos a permitir esta atrocidade!- Rosna o lobisomem.

         Erik entende o motivo da criatura estar apreensiva. Este era um novo inimigo, ainda mais ardiloso que seus rivais em comum, os Voivodes Tzimisce. Os boatos sobre esta nova linhagem eram os piores possíveis, um grupo de bruxos mortais que se transformaram pelas próprias mãos, diablerizaram um antediluviano e usurparam o papel de um dos 13 clãs.

- Sei de quem você se refere, meu clã também possui contas a acertar com estes parasitas, eles também cometeram crimes estre os meus, e sua reputação é odiosa até mesmo entre os outros clãs!

- Não desejo ouvir as histórias de seu povo, apenas quero que vocês deem um jeito nesta nova ameaça! Minha tribo não costuma ver muitas distinções entre seu clã e o restante dos sanguessugas, e se eles continuarem predando nossas famílias e profanando nossas terras, os anciões irão declarar uma guerra aberta contra todos vocês, sem distinção!


- Pois diga a seus anciões que eles nos desonram em nos comparar com os usurpadores Tremere, e nós é quem iremos iniciar uma guerra se continuarem a nos ofender desta forma!

         Um clima de tensão é palpável no ar, Erik não foi agressivo ao proferir suas palavras, mas o lobisomem mostra levemente suas presas, como que preparando-se para um iminente confronto. Este confronto, porém, não ocorreria, pelo menos não nesta noite.
         Erik mal se lembrava como era ter de batalhar com as feras da lua pelo território selvagem, desde a trégua feita por ele há 200 anos atrás, ambas as famílias dividiriam as matas destas regiões, desde que respeitassem o domínio e território de caça uns dos outros. Há dois séculos, os Gangrel e lobisomens uniram forças contra a ameaça do senhor dos Voivodes, Vladimir Rustovich, e o vampiro desejava manter o status quo.

- Não se preocupe, estes magos atravessaram nosso caminho, eles pagarão por sua insolência! Apenas peço que mantenha o pacto, nós daremos conta dos Tremere Oeste, enquanto vocês continuam segurando as legiões dos Tzimisce do Leste!

- Assim espero, sanguessuga, e não ousem nos decepcionarem!

         O lobisomem faz um leve cumprimento com sua enorme cabeça, retorna á sua forma de lobo, lhe dá as costas e volta por onde veio. Erik permanece parado no mesmo lugar por alguns momentos, suas batalhas se tornavam cada vez mais perigosas, seus inimigos mais numerosos, seus conflitos letais. Ele não sabia muito sobre magos ou magia, exceto o que ouvira de bandos ciganos em suas andanças, mas acreditava que seu clã poderia dar conta destes feiticeiros. Erik assume a forma de um lobo branco contrastando com a escuridão da floresta, e corre em direção á noite. Ele aproveita bem estes momentos, pois sabia que um novo conflito estava por vir.




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Re: SOBRE LOBOS E SOMBRAS

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