Araxá By Night

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Araxá By Night

Mensagem por Gular em Qua Jan 13, 2016 11:45 pm

“Depois de vinte anos voltei à minha cidade natal: Araxá. Meu marido e eu viajamos nove horas de carro. Mesmo sendo um caminho um pouco mais longo, optamos por passar por Uberlândia, onde a rodovia está um pouco melhor.
Minha primeira impressão foi a de que a cidade suportara as mudanças que ocorreram em todo o mundo. Uma bela avenida de entrada, com duas pistas separadas por um canteiro bem cuidado, com uma grama esmeralda bem aparada reluzindo um verde vivo como a muito tempo eu não via. Ao longe avistei um avião da TAM pousando e reparei que o aeroporto parece estar maior e melhor estruturado. Andamos alguns poucos quilômetros e onde antes haviam dois campus universitários discretos – CEFET e Uniaraxá - agora existe uma construção monumental onde funciona a Universidade Belmont de Araxá. Quando a crise começou a se agravar, as universidades públicas foram ficando cada vez mais sucateadas. O Governo, diante da falta de recursos para manter o ensino superior do Brasil forneceu incentivos para que as universidades americanas entrassem no mercado brasileiro, atendendo a demanda daqueles que ainda podem pagar por conhecimento. Belmont escolheu Araxá, por ser bem localizada e com índices de criminalidade menores que os das grandes metrópoles. Pude observar a arquitetura desta bela universidade e seus belos jardins e árvores atrás das grades de ferros que cercam toda a propriedade.
Seguimos pela avenida Amazonas que agora está tomada de prédios pequenos onde parecem viver boa parte dos estudantes universitários. Algumas lanchonetes e bares se instalaram nos andares térreos e identifiquei duas ou três boates, sendo que uma se localiza em uma praça onde eu jurava que antes havia uma igreja. Seguindo mais um pouco chegamos em um posto de gasolina que parece ser o marco de entrada daquele bairro universitário. Dali para a frente o cenário tornou-se bem mais próximo da realidade que eu estava acostumada em Goiânia. As ruas estavam esburacadas, as casas malcuidadas, sendo que TODAS, sem exceção estavam pichadas. Observamos o estacionamento de um supermercado abandonado cheio de barracas improvisadas com papelão e lona preta com indivíduos mal apresentados, vestindo trapos, tentando se esconder da chuva e se aquecer em fogueiras e tambores com brasas. Realmente as mudanças no clima foram brutais. Com o derretimento acelerado das geleiras da Terra, o clima nesta região do Brasil tornou-se úmido, e chove o tempo todo. Quando não está chovendo, o céu está nublado tornando a cidade cinzenta, muito diferente do que costumava ser. As previsões dos cientistas estavam corretas. Depois do superaquecimento repentino, a terra está esfriando, hoje por exemplo, um mostrador do hotel registrou apenas 7ºC, e olha que estamos em pleno verão.
Seguindo mais um pouco chegamos a um viaduto. Uma placa desgastada indicava: Centro a frente, prefeitura à direita. Nosso hotel ficava no centro e seguimos em frente. Lá em baixo, na Avenida Amazonas pude perceber que a passarela central, onde antes a vida pulsava com belos jardins e casais fazendo sua caminhada diária, agora existe apenas árvores mortas e retorcidas em meio à terra e concreto desgastado pelo tempo.
Subimos a avenida Vereador João Sena, onde pequenos comércios funcionam. Tatuadores, bares sujos, brechós e lojas de móveis usados são alguns dos quais eu me lembro. À esquerda vi que a rodoviária não mudou muito de como eu me recordava em minhas memórias, continua imunda e repleta de mendigos dormindo em seus arredores. As pousadas “familiares” do entorno continuam a abrigar bebuns e drogados que ainda se preocupam em dormir de baixo de um teto, por pior que ele seja.
Passamos por mais alguns comércios e residências até chegar a uma ilha no meio daquele cenário dark. A igreja São Sebastião com suas paredes brancas e alisares das portas e janelas em um azul vivo ao centro de uma pracinha muito bem cuidada. Um pipoqueiro vendia suas pipocas coloridas para alguns garotos que tinham acabado de sair da escola. Uma bela padaria à esquerda estava lotada de carros. Aparentemente trabalhadores saindo do emprego e comprando o lanche da noite para servir em casa.
No fim da avenida chegamos a um teatro que fica sob um espelho d’água que me pareceu estar funcionando, embora precise de uma reforma. Olhei de relance para a esquerda e vi o cristo lá no alto, com um dos braços quebrados e um matagal tomando conta da escadaria que leva até ele. Viramos à direita na avenida Antônio Carlos. O calçadão que liga o teatro à igreja matriz me lembrou os arredores da rodoviária de Belo Horizonte. Vários ambulantes tentando vender celulares, provavelmente roubados, e outras bugigangas. Pessoas se amontoavam em filas para pegar ônibus. Vi que existem alguns prédios novos na Rua Olegário Maciel, mas não identifiquei para que eles servem pois fizemos um retorno à esquerda antes de chegar à matriz. Mais abaixo vi que os casarões onde antes funcionavam a câmara municipal, um hospital e o museu Dona Beja (seria o destino?) se transformaram em prostíbulos. Os casebres da rua Dr. Franklin de Castro também me pareceram servir como locais de prostituição ou venda de drogas e o museu Calmon Barreto está agora abandonado. Seguindo mais um pouco chegamos ao hotel Virgilius, um prédio de oito andares imponente em relação às pequenas casas dos arredores.”

Gular

Data de inscrição : 13/01/2016

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