Roma e Cartago

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Roma e Cartago

Mensagem por Krauzer em Qua Dez 30, 2015 1:41 pm



"...algo da psicologia está por trás de certo tipo de religião. Naquela gente ávida por resultados práticos, além de resultados poéticos, havia uma tendência a invocar espíritos do terror e da compulsão; a comover o Aqueronte após perder a esperança de propiciar os deuses. Sempre existe uma espécie de crença obscura de que esses poderes mais sombrios irão de fato agir, sem brincar em serviço. Na psicologia interior dos povos púnicos, essa estranha espécie de pessimismo prático havia assumido grandes proporções. Na Nova Cidade, que os romanos denominaram Cartago, assim como nas cidades-mães da Fenícia, o deus que fazia acontecer coisas tinha o nome de Moloque, e talvez ele fosse a mesma divindade que nós conhecemos como Baal, o Senhor. Os romanos no início não sabiam bem que nome lhe dar ou o que fazer com ele; tiveram de regressar ao mais grosseiro mito das origens gregas ou romanas e compará-lo a Saturno devorando os próprios filhos. Mas os adoradores de Moloque não eram grosseiros ou primitivos. Eram membros de uma civilização madura e polida, repleta de refinamento e luxo; eram provavelmente muito mais civilizados que os romanos. E Moloque não era um mito; ou, de qualquer modo, não era um mito o seu alimento. Esse povo altamente civilizado de fato se reunia para invocar as bênçãos do céu sobre seu império, e centenas de crianças eram atiradas numa grande fornalha. Podemos entender essa combinação de ações imaginando muitos comerciantes de Manchester usando cartolas altas como chaminés e costeletas sustentando a barba indo para a igreja todos os domingos às onze horas para ver um bebê ser assado vivo.
Os primeiros estágios da briga política e comercial podem ser seguidos em todos os detalhes por se tratar de uma briga meramente política e comercial. Houve um tempo em que as guerras púnicas davam a impressão de não acabar nunca; e não é fácil dizer quando elas começaram. Os gregos e os sicilianos já haviam vagamente combatido do lado dos europeus contra a cidade africana. Cartago havia derrotado a Grécia e conquistado a Sicília.
Cartago também se plantara com firmeza na Espanha; e, entre a Espanha e a Sicília, a cidade latina ficou encurralada e teria sido facilmente esmagada, se os romanos fossem do tipo de gente que pode ser facilmente esmagada.
No entanto, o interesse da história reside realmente no fato de Roma ter sido esmagada. Sem a interferência de certos elementos morais e também materiais, a história teria terminado exatamente no ponto em que Cartago
julgou que ela tinha terminado. É muito comum condenar Roma por não fazer as pazes. Mas um instinto popular dizia que não poderia haver paz com aquele tipo de gente. ÉE muito comum condenar Roma por sua Delenda est Carthago: Cartago deve ser destruída. É mais comum ainda esquecer, diante de todas as aparências, que a própria Roma foi destruída. Com demasiada frequência se esquece de que a atmosfera sagrada que envolveu Roma para sempre se deveu em parte ao fato de ela ter ressuscitado dos mortos.
Cartago era uma aristocracia, assim como acontece com a maioria dos estados mercantilistas. A pressão dos ricos sobre os pobres era tão impessoal quanto irresistível. Pois essas aristocracias jamais permitem um governo pessoal, e talvez essa seja a razão de o governo cartaginês ter tido ciúme do talento pessoal. Mas o gênio pode surgir em qualquer lugar, até mesmo no seio de uma classe governante. Como se fosse para tornar terrível ao extremo a prova suprema do mundo, decretou o destino que uma das casas mais nobres de Cartago produzisse um homem que saiu daqueles palácios dourados com a energia e originalidade de um Napoleão provindo de lugar nenhum.
Na pior crise da guerra, Roma soube que a própria Itália, por um milagre militar, foi invadida pelo norte. Aníbal, a Graça de Baal como seu nome dizia em sua própria língua, arrastara um pesadíssimo séquito de armas por sobre as estreladas solidões dos Alpes; e rumava para o sul na direção da cidade que ele, por todos os seus terríveis deuses, se comprometera a destruir.
Aníbal marchou para Roma, e os romanos que se apressaram a lutar contra ele tiveram a impressão de estar combatendo um mago. Dois grandes exércitos se afundaram à direita e à esquerda de Aníbal nos charcos da Tré- bia; outros foram tragados no terrível redemoinho de água de Canas; outros mais acorreram para ser arruinados a seu toque. O sinal supremo de todos os desastres, a traição, levou uma tribo atrás de outra a se rebelar contra a
causa perdida de Roma, e mesmo assim o invencível inimigo fazia rufar seus tambores cada vez mais perto da cidade: seguindo seu grande líder, o crescente exército cosmopolita de Cartago passava como um desfile do mundo inteiro: elefantes que faziam tremer o chão como se fossem montanhas em marcha, gigantescos gauleses com sua armadura bárbara e os escuros espanhóis cingidos de ouro e morenos númidas sobre seus desenfreados cavalos do deserto girando e dardejando como falcões e multidões de desertores, mercenários e todo o tipo de gente; a Graça de Baal avançava diante deles.
Os áugures e escribas romanos que naquela situação anunciaram prodígios sinistros (nasceu uma criança com cabeça de elefante, estrelas caíram como granizo) captaram muito mais a filosofia daqueles acontecimentos do que os historiadores modernos que naquilo só conseguem ver o sucesso de uma estratégia pondo fim a uma rivalidade comercial. Algo totalmente diferente
foi o que se sentiu naquele exato momento e lugar, algo que sempre sentem os que experimentam uma atmosfera estrangeira penetrando na atmosfera de sua casa como uma névoa ou um sabor desagradável. Não era uma derrota militar, nem certamente uma simples rivalidade mercantil que enchia a imaginação romana com esses horrendos presságios que tornavam a própria natureza inatural. Era Moloque sobre a montanha dos latinos, olhando com seu rosto horrível através da planície; era Baal que pisava os vinhedos com seus pés de pedra; era a voz de Tanite, a invisível, por trás de seus longos véus, sussurrando sobre o amor que é mais horrível que o
ódio. A queima dos campos de trigo e a destruição dos vinhedos italianos foram mais que coisas concretas; foram alegorias. Foram a destruição de bens domésticos e bens lucrativos, o enfraquecimento do que era humano, antes daquela desumanização que vai muito além da marca humana chamada crueldade.
Os deuses da família se curvaram até o chão entrevados sob seus tetos baixos; e acima deles cavalgavam os demônios nas asas de um vento que vinha de fora dos muros, soprando a trombeta da tramontana. A porta dos Alpes caíra ao chão; e em sentido nada vulgar, mas sim muito solene, era o inferno que estava às soltas. A guerra dos deuses e demônios parecia ter acabado; e os deuses estavam mortos. As águias estavam perdidas, as legiões estavam desfeitas; e em Roma nada restava exceto a honra e a fria coragem do desespero.
No mundo inteiro havia uma só coisa que ainda ameaçava Cartago, e era Cartago. Ainda havia a ação interior de um elemento forte em todos os Estados comerciais bem-sucedidos, e a presença de um espírito que é nosso
conhecido. Ainda havia a sólida sensatez e a perspicácia dos administradores de grandes empresas; ainda havia o aconselhamento dos peritos em finanças; ainda havia o governo comercial; ainda havia a ampla e sensata visão dos práticos negociadores do Estado; e nessas coisas os romanos podiam ter esperança. Quando a guerra se arrastava para o que parecia seu trágico fim, foi aos poucos surgindo uma leve e estranha possibilidade de que mesmo àquela altura os romanos talvez não esperassem em vão. Os simplórios comerciantes de Cartago, pensando como costumam pensar esses homens em termos de raças que vivem e morrem, viram com clareza que Roma não estava apenas morrendo; estava morta. A guerra terminara; obviamente a resistência da cidade italiana já não fazia sentido, e era inconcebível que alguém resistisse sem nenhuma esperança. Nessas circunstâncias, havia outro conjunto de amplos e sólidos princípios comerciais a considerar. As guerras eram mantidas com dinheiro e, consequentemente, custavam dinheiro; talvez eles sentissem em seu coração, como faz muita gente dessa espécie, que no fim das contas a guerra devesse ser um pouco perversa, pois custa dinheiro.
Chegara agora o tempo da paz; e mais ainda, da economia. Os recados enviados por Aníbal de tempos em tempos pedindo reforços eram um anacronismo ridículo; havia agora coisas muito mais importantes a cuidar. Pode
ser verdade que um ou outro cônsul fez uma última investida na batalha do rio Metaurus, matou o irmão de Aníbal, Asdrúbal e, num gesto de fúria latina, atirou a cabeça dele para dentro do campo de Aníbal. Atos de loucura
desse tipo mostravam o total desespero dos latinos em relação a sua causa.
Mas nem mesmo esses irritáveis latinos poderiam ser loucos a ponto de se aterem para sempre a uma causa perdida. Assim argumentavam os melhores peritos em finanças; e arquivavam cartas e mais cartas, repletas de estranhíssimos relatórios alarmistas. Assim argumentou e agiu o grande império cartaginês. Aquele preconceito absurdo, a maldição dos Estados comerciais, de que a estupidez é de certo modo prática e de que o gênio é de certo modo fútil, os levou a abandonar e subjugar pela fome aquele grande artista na escola das armas, que os deuses lhes haviam dado em vão.
Por que os homens cogitam esta estranha ideia de que o sórdido deve sempre derrubar o magnânimo; de que há alguma vaga ligação entre o cérebro e a brutalidade; ou de que não importa que alguém seja obtuso desde que também seja malvado? Por que eles têm a vaga sensação de que todo cavalheirismo é sentimento e todo sentimento é fraqueza? Eles agem assim
porque são, como todos os homens, primeiramente inspirados pela religião.
Para eles, como para todos os homens, o primeiro fato é sua noção da natureza das coisas; sua ideia acerca do mundo em que vivem. E a crença deles é que a única coisa suprema é o medo e, portanto, que o próprio âmago do mundo é mau. Eles acreditam que a morte é mais forte que a vida e, portanto, as coisas mortas devem ser mais fortes que as vivas; sejam essas coisas mortas ouro, ferro e máquinas, ou rochas, rios e forças da natureza. Pode parecer fantasioso dizer que os homens que encontramos tomando um chá ou participando de uma festa ao ar livre são em segredo adoradores de Baal ou Moloque. Mas esse tipo de mentalidade comercial tem sua própria visão cósmica, e é a visão de Cartago. Ela encerra o erro brutal que foi a ruína daquela cidade. O poder púnico ruiu por existir nesse materialismo uma insensata indiferença para com o pensamento real. Deixando de crer na alma, ele deixa de crer na mente. Sendo prático demais para ser moral, ele nega o que todo soldado prático chama de moral de um exército. Ele imagina que o dinheiro lutará quando os homens já não lutarem mais. Foi o que aconteceu com os príncipes comerciantes púnicos. A religião deles era uma religião de desespero, mesmo quando sua fortuna era auspiciosa. Como poderiam entender que os romanos pudessem ter esperanças diante de uma fortuna inviável? A religião deles era uma religião de força e temor; como poderiam entender que os homens ainda conseguem desprezar o medo, mesmo quando se submetem à força? A filosofia de mundo deles tinha o cansaço em sua própria essência; acima de tudo, eles estavam cansados da atividade bélica; como deveriam entender aqueles que ainda pelejam mesmo quando estão cansados disso? Numa palavra, como deveriam entender a mentalidade do homem que por tanto tempo se curvara ante coisas estúpidas, o dinheiro e a força bruta e os deuses que tinham o coração de feras? Eles de repente acordaram para a notícia de que as cinzas que eles haviam tratado com tal desdém a ponto de não se dignarem pisoteá-las para as apagar estavam de novo irrompendo em chamas por toda parte; de que Asdrúbal fora derrotado, Aníbal fora superado em números, Cipião havia levado a guerra para a Espanha; depois a levara para a África. Exatamente diante das portas da cidade dourada Aníbal travou sua última batalha por ela e perdeu; e Cartago caiu numa queda sem par desde a de Satã. O nome da Nova Cidade permanece apenas como um nome. Dela não resta nenhuma pedra sobre a areia. Outra guerra na verdade foi travada antes da destruição final: mas a destruição foi
final. Somente homens solitários que escavaram suas profundas bases séculos mais tarde encontraram uma pilha de centenas de pequenos esqueletos, as sagradas relíquias daquela religião. Pois Cartago caiu por ser fiel a sua
própria filosofia e por seguir até a conclusão lógica sua própria visão do universo.
Moloque devorara seus filhos.
Os deuses haviam ressuscitado mais uma vez, e os demônios haviam sido finalmente derrotados. Mas haviam sido derrotados pelos derrotados, e praticamente pelos mortos. Ninguém entende o romance de Roma, e por que
ela ressurgiu para ser depois uma liderança representativa que parecia quase predestinada e fundamentalmente natural. Quem não se lembra da agonia de horror e humilhação através da qual ela continuou dando testemunho em favor da sensatez que é a alma da Europa? Ela passou a ocupar uma posição única no centro de um império porque anteriormente ocupara solitária uma
posição em meio à ruína e à destruição. Depois disso todos sabiam lá no fundo que ela representara a humanidade, mesmo quando rejeitada pelos homens. E caiu sobre ela o prenuncio de uma luz brilhante ainda invisível e o
peso do porvir."


* Trecho retirado do livro "O HOMEM ETERNO (G. K. CHESTERTON)"
avatar
Krauzer

Data de inscrição : 29/10/2013
Idade : 47

Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum