Osama

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Osama

Mensagem por leonardo20rjvp em Qui Ago 15, 2013 9:58 pm

Por onde começar? Esta foi a pergunta que me atormentou nas primeiras horas em que estive naquele container. E o caminho até o porto do Rio de Janeiro já havia sido infernal.
Misturavam-se muitos sentimentos. O prazer do primeiro diablerie me dava tesão, o surpresa da traição daquele que guardei por anos me fazia chorar sem lágrimas, a impotência diante da morte de Chacal me trazia vergonha. Mas nenhuma delas suplantava o ódio. Não tremia de frio, a vontade de ter o sangue de Mikael era maior; o tremor era de ansiedade.
Aquele tirano vagabundo. No final não irá ordenar, vai pedir pela sua vida.
Mas, por onde começar?
O que sei é que esse navio vai para o Irã. Que saudade, não sei quantos anos fazem desde que deixei-o e nem sei porque fiz isso. Essa porra de amnésia.
Cara que cansaço, tem um espaço aqui para sentar. Talvez a meditação que aqueles Vizires praticam me ajude a controlar os sentimentos.
No início o som do mar e dos marinheiros do lado de fora me acompanharam e foram umas cinco horas até eu ouvir o trovão, mas quando abri os olhos não estava no navio. Era uma cidade e eu sabia que cidade era aquela. Los Angeles , a noite de Los Angeles. E havia um cerco formado. O Cerco á Camarilla de Los Angeles. Mas um cerco orquestrado por quem? Os malditos resistiram e desfizeram a zona de sítio, mais do que isso dizimaram aqueles que os açoitaram. E um escapou, foi para o Irã, para Tanger. E novamente o trovão. E esse durou mais tempo ou era a estrondosa sirene do navio.
A viagem dura três, quatro dias e a visão era de apenas alguns segundos. -Puta que pariu que fome- tateei no escuro e achei uma tranca; quando abri o container não havia ninguém no convés. Os últimos marinheiros estavam saindo. Foi fácil chamar a atenção de um deles. Joguei-lhe um parafuso que estava no chão e me ofusquei, ele parou. Assobiei, ele se aproximou foi suficiente. O sangue dele era bom, forte.
-Não vou deixá-lo aqui no meio da embarcação. Levei-o para dentro do container e no caminho vi alguém se aproximar. Apurrinhação agora não. Meus movimentos foram muito bruscos, por isso a ofuscação não surtiu efeito.
Quando saí o cara já estava na minha frente. Tinha quase um metro e noventa, cabelos e olhos negros, lembrava muito, em suas feições, o povo da península dos Balcãs, mas era sisudo. E disse:
-O que você estava fazendo?
Nessas horas ser mudo é um cu. Sinalizei, apontei para mim, para ele, juntei e afastei as mãos. O desejo era dizer a ele que apenas que queria sair dali.
-Você é mudo?
Toquei o meu pescoço e fiz sinal de positivo com a cabeça. O que me intrigou foi a sua calma mesmo tendo visto eu me alimentando. Já sabia da existência de vampiros em Tanger. Com os dedos imitei duas presas na boca e apontei para ele. Foi aí que ele se entregou. Deu um sorriso de canto de boca, não pude discernir se era surpresa ou soberba. Pode ter tentado me enganar, só que faltou inteligência, denunciou-se assim que terminou a frase.
-Não posso responder.
Pobre não vivente. Não tinha nada a tratar com ele, então resolvi sair do navio. Mas antes de completar o segundo passo senti sua mão em meu peito. Senti Chacal vivo dentro de mim. Ele não hesitaria em colar um na cara desse malandro agora. Com toda a minha velocidade fui para a escada de saída e ofusquei-me novamente e não mais o vi.
E novamente, por onde começar?
Um refúgio do Clã. Sei que eles ficam escondidos nas áreas remotas aqui do Oriente Médio mas não lembro de nenhum. A Universidade. Devo achar alguma pista sutil por lá. Um pergaminho antigo, um mapa. Pode ser um bom começo.
Passar pelo portão foi fácil o guarda realmente nem viu. De um aluno fiquei sabendo onde era o prédio de História. O saguão do prédio era amplo e belo, o chão de mármore reluzia. O teto do pavimento era bem alto e cheio de lustres prateados. No fundo uma moça sentada de frente para um computador.
-Boa noite. – sua voz era doce e calma.
Pedia ela papel e caneta, assim é mais fácil de ser entendido. E escrevi:
“Boa noite, sou um pesquisador e estou vindo do Brasil, acabei de chegar na cidade. Estou procurando um acadêmico na área de escritas antigas e mapas. Quero apenas saber por onde começo, algumas direções na região.”
Com classe e refinamento ela pediu-me um momento – o sangue dela deve ser muito bom. Tratei logo de controlar meus instintos e lembrei das leis do Grande Haquim. Com o telefone na mão ela falou alguns instantes com um professor; seu nome: Isaac Krashin. Passou a ele as informações dadas por mim, o que foi suficiente para permitir que eu o visse.
Subi as escadas à minha direita e segui por um corredor de tacos de madeira, passei por duas portas, a terceira tinha o nome do referido professor. Dei duas batidas leves na porta. A voz que veio de dentro lembrava a dos grandes Vizires, os mestres do ensinamento, era impositiva, imperiosa, prendia a atenção.
- Entre por favor.
Tive uma surpresa. A voz destoava do seu conjunto físico, o homem era baixo, barrigudo e tinha cabelos brancos, beirava os sessenta anos. Mas seus olhos me intrigaram: eram de um azul vivo e brilhante, pareciam duas estrelas sobre um deserto.
-Em que posso ajuda-lo? – Disse enquanto me olhava.
Gestualmente pedi papel e caneta, e veio a porra da pergunta de sempre:
- Você é mudo? – Como isso me incomoda.
Fiz que sim com a cabeça e ele me ofereceu os itens necessários, os velhos lápis e papel.
“Boa noite professor, venho do Brasil e estou fazendo uma pesquisa sobre mapas com escritas que não foram decifradas.” Ao olhar seu papel sua expressão mudou, a surpresa tomou sua aparência antiga.
- Que curioso. Bem meu jovem, a mais ou menos uma hora dois homens estiveram aqui com um mapa que tem o perfil da sua linha de pesquisa. Como eu não trabalho diretamente com esses itens indiquei um amigo com mais experiência no assunto. Posso chamá-lo aqui se você quiser.
Abaixei minha cabeça em sinal de agradecimento. O homem retirou-se da sala levando seu celular. Enquanto isso, eu estava inquieto, um mapa desse tipo se retratar alguma região do Oriente Médio tem grande possibilidade de ser cartografia Assamita; mas como foi obtido? Já que presamos excessivamente pela nossa discrição.
Enquanto me embebia nesses pensamentos o professor voltou.
- Ele está vindo para cá, pode aguardar aqui se quiser. Mas tem alguma coisa acontecendo que eu deva saber?
“Bem Dr. Krashin – assim dizia a placa com seu nome sobre a mesa – estou chegando agora vindo do outro lado do mundo, para mim tudo está normal.”
Passei o tempo pensando na questão do mapa, mas nada me ocorreu, o professor provavelmente tratava dos seus assuntos universitários no computador. E o tempo passou.
Com os exatos vinte minutos passados ouvi uma batida na porta. O velho se dirigiu a ela e recebeu um homem curioso. Parecia mais um punk do que um estudioso dessa área.
- Sr. Tortora, esse é o rapaz que havia falado.
Tortora usava uma calça larga, camuflada para selva, coturnos e camiseta preta. Devia ter uns cinco brincos presos na orelha esquerda e um piercing atravessa a cartilagem da orelha direita. Usava um moicano espetado para cima.
Levantei-me e fiz uma reverência com a cabeça, correspondida por ele. Utilizando o papel e a caneta, pedi um lugar ao professor para que conversasse a sós com o curioso homem. O doutor saiu da sala para nos deixar à vontade.
- Em que posso ajudá-lo? – começou ele.
Escrevi:
“Procuro alguns mapas com escritas que não foram decifradas ainda ou que mostrem locais que não foram encontrados.”
Ao terminar de ler ele olhou bem nos meus olhos.
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