No vagão na meia lua.

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No vagão na meia lua.

Mensagem por Killer Instinct em Sab Nov 10, 2012 8:37 am

O rapaz termina de correr e observa o trem passando ali perto com a meia lua brilhando alaranjada no céu limpo, ele está cansado de diversas maneiras, afinal foi uma corrida longa e uma decisão pesada. Ainda sim, sua fuga está em curso. Cruzou metade da cidade à noite com sua mochila escolar nas costas com o que ele julgou ser necessário para viver na estrada. Um ato infantil e desesperado. Sua mochila é coloria demais com desenhos de personagens de historias em quadrinhos, na sua mochila está suas roupas e dois pequenos livros de bolso, uma velha historia de fantasmas escrito por um escritor bêbado da Nova Inglaterra e o outro é uma historia com quase setenta anos escrita por um caçador, nela o escritor tenta escrever interpretando o personagem principal que é um lobo selvagem tentando sobreviver na exploração do Alaska. Itens que são inúteis para uma viagem, ali no espaço reservado para os dois livros ele poderia ter colocado mais alimentos e pares extras de meias.
O vagão de trem está começando a ganhar velocidade. O garoto tem apenas quinze anos, mas é alto para a idade e muito magro e leve, suas pernas dão passos longos e o tênis vagabundo e gasto pisa no cascalho próximo dos trilhos de trem. Ele procura desesperadamente por algum vagão do tipo fechado com uma das portas abertas, mas não acha. Mesmo com sua corrida ligeira ao lado do trem ele não teria como abrir alguma para poder pular e entrar. Sua esperança em conseguir escapar vai diluindo.
Sua fuga não foi planejada exatamente, mas um ímpeto ao escutar que o pai estava voltando para casa. Ele era o principal motivo para fugir de casa. Um homem detestável e ainda sim amado por muitos, especialmente pelas mulheres. Sua mãe era uma dessas que suportava todo de ruim que ele fazia ou representava e no fim ao ver um sorriso do velho caminhoneiro já pedida para o filho ir para o cinema por algum tempo para ter tempo o bastante para se entregar para o velho.
Isso entre outras coisas o perturba. Seu pai é tipo como carismático, mas apenas causa arrepios no próprio filho. Arrepio e nojo, ele não tinha ilusões que o pai era fiel a sua mãe. Seu pai sempre parecia conseguir o que queria dos outros, olhava para uma mulher e dava um dos seus sorrisos largo e fazia qualquer uma sentar em seu colo, com os homens ele simplesmente encarava e apavorava eles como bem deseja-se, fora isso não parecia ser digno de tudo isso, ele é um homem de estatura meramente mediana, pele morena e queimada pelo vento, sorriso mais predatório do que bonito e cabelo negro e duro. Se diverte em contar piadas sujas e subjugar os outros, e ainda sim não passa de um caminhoneiro de merda dirigindo um caminhão velho de um azul desbotado. O jovem não suporta mais isso e pensa que deveria bater no pai, matar ele, humilhar no mínimo, mas sabe que o pai não causa medo aos outros sem um bom motivo.
Uma das portas de um vagão é aberta a um vagão à frente, primeiramente o que dá para enxergar é que lá dentro tudo é muito escuro, então uma luz é acessa, parecia vir de um fogo fraco em vez de luz elétrica. Um homem chega na beirada com cuidado e estende uma mão marrom de sujeira e com uma luva sem dedos também marrom e feita de tecido grosseiro. A primeira coisa que jovem rapaz em fuga repara no rosto do homem é seu belo sorriso com dentes muito brancos. O velho continua sorrindo de jeito gentil e maneia a cabeça como se estivesse dizendo para o rapaz se apressar e subir logo. Ele então corre mais rápido, os cascalhos atrapalham e por um momento ele quase caí, mas ali já estava a mão do homem. O rapaz toma jeito e consegue com a ajuda do desconhecido a entrar no vagão, os dois caem no piso do vagão e fica ali deitados por alguns segundos.
Após os dois se sentarem no chão do vagão o rapaz logo repara que o homem parece viver ali faz algum tempo, o lugar fede e está cheio de sujeiras de todos os tipos, em um canto está vários panos e mantas jogadas no piso e sendo usada como uma cama, em outro canto existe algumas latas de comida, muitas já abertas e com restos de feijões em lata e uma lanterna a querosene que iluminava o vagão de forma fraca. O homem chama sua atenção novamente canto um velho chapéu fedora cinza puído e sujo. Ele coloca o chapéu na cabeça e sorri novamente para o jovem rapaz e diz numa voz agradável como o sorriso.
- Bem vindo, rapaz. Me diga, tá na estrada há quanto tempo? - O rapaz queria evitar conversas, mas o homem tinha ajudado ele, então logo responde com uma mentira, pois sabia bem que não devia deixar claro que era marinheiro de primeira viagem. O homem ri por algum motivo, mas não parece ser por escárnio. Sempre quando ri ou sorri os olhos do homem confirma a sinceridade do ato, pois brilham de maneira bonita e jovem. O homem tem uma tez bronzeada e saudável, cabelo castanho claro e olhos de um castanho-esverdeado bonitos de se verem. O homem então se apresenta dizendo que seu nome é Tomás e está na estrada há quase toda a vida e seguida pelas linhas de trem.
Pela porta deslizante que estava aperta e deixando o ar e o vento entrarem o rapaz observa sua cidade sendo deixada para trás, pouco mais de seis mil casas com familias felizes, familias infelizes e pessoas solitárias. Uma ou outra estava vazia com ratos e pestes de todos os tipos habitando, mas algumas tinhas fantasmas do passado. Sensações grudavam nesses lugares. Medo, ódio, até mesmo o que não era ruim como o amor deixava essas casas com marcas eternas. O velho viajante parece ler sua mente e diz de maneira triste.
- Sei o que sente, filho. Nunca é fácil deixar um lugar para trás, seja um viajante de longa data ou não. Não vou pedir para desviar os olhos, você faz bem em olhar o lugar por uma última vez e procure guardar na sua alma essas recordações. Tais coisas devem sempre ser mantidas bem junto ao coração. - O rosto fica molhado por lágrimas, o rapaz tinha tentando deixar o coração duro para poder fazer tudo isso sem chorar, mas as palavras do homem abrem caminho até seu coração e o choro vem. O velho viajante olha com tristeza nos olhos para o garoto a sua frente e diz em uma voz baixa e triste. - Rapaz, por favor não chore mais, isso atrapalha sua visão, veja bem sua cidade sendo deixada para trás e não deixe as lágrimas sujarem essa lembrança. - Fungando, ele põem ao choro e perguntando para o experiente viajante sobre seu lar e como foi sua despedida, o velho homem balança a cabeça e recusa contar sua própria historia, o rapaz compreende bem isso e procura esquecer esses assuntos sentindo vergonha.
O homem fica em pé e anda com calma para perto de uma caixa de madeira, de lá tira o que parece ser um pequeno fogão portátil a gás e chama o rapaz para perto e coloca uma lata aberta em cima e liga o fogo.
- Salsicha tipo vienense, nunca estive em Viena, mas vale a pena visitar por causa dessas belezinhas - O cheiro de tripas e carne duvidosa desperta fome no rapaz, mas também traz tristeza pensando que agora teria que comer tais coisas quando antes podia comer um bom filé mignon uma ou duas vezes por semana, sua mãe cozinha bem e não tem medo de gastar dinheiro comprando coisas boas para ter para comer, mesmo quando o pai estava fora em suas viagens.
O viajante enquanto isso tirava mais coisas da caixa de maneira, dois garfos sujos feitos totalmente de aço até o cabo, uma garrafa de plástico com o que certamente é uma bebida forte e alcoólica, o homem abre a garrafa e toma um gole entrega para o rapaz, o cheiro é forte demais e deixa ele meio enjoado. O viajante sorri com isso e diz.
- Também nunca estive no Brasil, mas isso é uma belezinha, é chamada cachaça. Bebe aí. - De maneira duvidosa o rapaz vira a garrafa de leve e deixa o liquido escorrer, o gosto é muito doce e forte e ele cospe um pouco. O homem ri disso e balança a cabeça, mas o rapaz também ri disso tudo. Logo a janta termina de ser feita e eles comem direto da lata fisgando os pedaços de salsicha lá de dentro. O gosto não é bom, mas a bebida ajuda a colocar para baixo.
Quando terminam de comer o homem começa a contar historias de onde já passou e quem já conheceu, fala de uma vez perto de Atlanta quando um rapaz tal como ele entrou no trem com sua ajuda, era um menino de dezessete anos e negro que fugia da mãe drogada que secretamente tinha matado na infância dois outros filhos em um ataque de raiva por falta das drogas, conta também que em Jacksonville uma menininha de apenas treze anos fez o mesmo, nesse caso estava fugindo de um pai molestador que era o próprio tenente de policia da cidade. Então por fim conta também sobre uma mulher grávida que ele ajudou nesse mesmo vagão a ter o bebê, ela não fugia de ninguém, apenas vivia na estrada também geralmente pegando caronas ou subindo em trens. O bebê nasceu segundo ele perto da lamparina e recebeu o nome de Francis.
- Esse garoto parecia você, sei que é besteira dizer isso comparando um rapaz como você com um bebê recém nascido, mas é verdade. Verdade verdadeira. - Após terminar de contar ele toma um tempo e diz para o rapaz com uma voz baixa e calma. - E sua historia? Largando o que pra trás? Fugindo de quem ou do quê? Diz aí, compartilhei várias historias e agora você me deve. -O rapaz olha por mais um momento para fora do vagão, o trem agora passa próximo de uma ravina feia e escura, ele ergue os olhos e aprecia a lua e as estrelas antes de contar sua historia. - Fujo do meu pai, fujo da minha mãe submissa, da falta de amigos e felicidade. - O velho faz sinal com as mãos para o rapaz contar mas, ele também lambe os lábios e mantém os olhos fixos no rosto do outro e diz baixinho. - Vai. Conta mais. Conta aí. -
Então ele conta. Sua alma está ferida e pesada, ele sente que vai morrer se contar, mas conta mesmo assim pois o velho viajante queria escutar. - Uma vez cheguei em casa e minha mãe estava estirada no chão com várias marcas de socos no rosto e agarrões nos braços, e ele o meu pai estava ali sentado em uma poltrona reclinavel tomando cerveja e observando ela no chão com uma cara sem emoções. Isso quanto eu tinha treze anos, jurei naquele dia que mataria ele... - O velho continua olhando vidrado para o rapaz e exorta por mais. - Sim, sim. Mais. - O rapaz continua contando, sua raiva cresce assim como tristeza a cada nova revelação, que uma vez viu o pai com outra mulher do lado de fora de casa aos beijos e agarrões, que tinha visto uma vez sua mãe chorando no telefone e conversando com a sua avô e falando como ficava triste com a falta do marido. - Como ela poderia sentir falta dele? Nunca senti isso. Coma ela era capaz de amar um homem desses? O homem faz sinal afirmativo com a cabeça e lambe novamente os lábios, o rapaz está concentrado demais contanto tudo que passou.
Que o pai espantou seu único e verdadeiro amigo ao pegar os dois brincando de policia e ladrão e dizer que essa brincadeira era coisa de gente ignorante e gritar e apavorar o amigo até que ele mijasse nas calças e corresse dali para nunca mais voltar.
- Outra vez quando vizinhos novos se mudaram para a casa do lado ele em menos de uma semana bateu no homem por algum motivo qualquer e foi preso de maneira humilhante, ficou preso por sete meses, mas mesmo assim não tive paz, minha mãe obrigava eu ir na prisão com ela sempre, forçava eu falar com ele sem querer e depois eu era obrigado a esperar enquanto ela tinha uma visita mais intima com ele. Eu ficava irado com isso, não tinha desejo maior do que matar ele, e bater nela também já que parecia que ela adorava sofrer. - O rapaz conta isso encarando suas próprias mãos, ele aperta com força elas e sente suas unhas perfurando sua própria carne. Levanta a cabeça dizendo cheio de ira e pensamentos sombrios. - Não deveria ter fugido, eu não. Ele quem devia fugir de mim, deveria ensinar uma lição para ele... - Então ele repara no velho e simpático viajante, agora ele já não parece velho e nem simpático, mas sim algo inumano, onde antes tinha um sorriso fácil e bonito com dentes bem brancos estava alguma coisa torta e grotescamente escancarada se mexendo de jeito que indica que ali tinha sido uma boca, mas muito mais. Nada de dentes ali, apenas o que parece ser carne e tendões comendo o ar. No topo de uma cabeça deformada e cônica um chapéu velho e cinza está entre dois pares de olhos de um verde musgo e fendidos com carne espalhada de maneira repulsiva em volta, a enorme boca capaz de engolir toda a cabeça do rapaz chega mais próxima e diz com uma voz profunda. - Mais, quero mais sofrimento. Mais ódio, conta mais pois tenho fome. - Dois braços agarram os ombros do rapaz, a mesma firmeza e força que ajudou ele a subir no vagão agora o prende, as duas mãos que seguram ele iguais, sujas e com luvas sem dedos, mas logo ele sente um agarrão em volta do tronco abaixo do peito, então vê que dois novos membros estão saindo das roupas do viajante, duas massas de carne escura e cheias de tendões, a coisa parecida com uma boca mexe de maneira asquerosa e idiota, e balbucia. - Preciso de mais. Mais disso, mais daquilo. Pode entregar de corpo e alma para mim esse seu ódio, meu filho... - Então ele entrega. Ódio, fúria e medo, tudo ao mesmo tempo.
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Re: No vagão na meia lua.

Mensagem por Killer Instinct em Sab Nov 10, 2012 8:38 am

Merda fresquinha, acabei de escrever. O final teria uma reviravolta, mas imaginei que teria menos graça se no final as coisas virassem de posição e rolasse um final "feliz".
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Re: No vagão na meia lua.

Mensagem por Gam em Dom Fev 03, 2013 8:12 pm

A cor da fonte foi mal-escolhida, mas isso é facilmente resolvível.
Se o texto tiver algum espaçamento entre os parágrafos ele fica melhor digerível. Assim atropelado torna a impressão de ser cansativo de ler (só a impressão, porque eu li e a história fluiu numa boa). Outra coisa facilmente resolvível.

No mais, achei o conto bem legal. x)

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Re: No vagão na meia lua.

Mensagem por Killer Instinct em Ter Fev 05, 2013 6:51 pm

Valeu pelo comentário. Escrevi em um momento de tédio, tudo em seguida como é meu costume. Essas cores são as que uso aqui no fórum, em outro lugar em que postei usei as outras cores do meu personagem.

Fiz assim sem espaços e parágrafos seguindo um exemplo de um livro que estava lendo na época, onde o escritor faz desse jeito. Inclusive mudei meu estilo de escrita como jogador para um jeito assim, realmente fica muito comprimido. Como narrador, voltei para meu modelo antigo pois realmente não fica legal assim.
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Re: No vagão na meia lua.

Mensagem por miguel rosa em Ter Fev 12, 2013 11:39 am

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Re: No vagão na meia lua.

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